terça-feira, novembro 23, 2004

Capitulo 1 – Vida Pacata


Ano de 2000, 15 anos antes

A Vida de Tahsel nunca fora perfeita. Na verdade acreditava que ninguém possuía uma vida perfeita, porque no final das contas existem sempre os altos e baixos e é isso o que torna a vida divertida. Contudo a sua vida estava indo de mal a pior. Suas notas na escola estavam horríveis, a maior era cinco. Não possuía amigos, não porque nunca havia tentando fazer um. No início as pessoas tentavam se aproximar dele, ficarem intimas, criar laços de amizade. No entanto elas desistiam quando percebiam que ele não confiava neles e não desejava a amizade delas.
Pode parecer estranho, porém Tahsel já teve um amigo, um grande amigo. Era como um irmão para ele. Confiaria a sua vida a ele sem ao menos pensar. Possuía inteira e total confiança nele, jamais o trairia de maneira alguma. Preferiria trair a si mesmo a traí-lo. Contudo isso tudo não foi suficiente para seu suposto amigo. Este o traíra sem ao menos pensar duas vezes. Tahsel Passou a odia-lo depois disso. Depois desse triste acontecimento, ele simplesmente perdeu a sua capacidade, ou melhor a vontade de confiar, nas pessoas.
Desde de pequeno sempre teve três grandes sonhos. O primeiro era ser um grande tocador de violão e de flauta, este ele já estava conseguindo realizar. Havia ganho um violão de seu pai aos sete anos e uma flauta aos dez, sua aptidão para com os dois era fora do comum, extraordinária. Mal ele sabia isto ter relação direta com o seu passado. Quando tocava um dos dois sentia-se feliz, alegre, revigorado. Podia sentir a música fluir pelo seu corpo inteiro, como se fosse energia. Já o segundo sonho era ser um famoso escritor, bom é verdade que ele tinha algumas histórias e poemas escondidos em algum lugar de seu quarto mas ainda não possuía um livro escrito por completo.
O terceiro bem … esse era o mais difícil de ser realizado. Infelizmente, era o único fora de seu alcance, entretanto ele nunca perdeu a fé. Sempre acreditou que um dia ele o realizaria. Fé. Isso era uma coisa muito forte nele, se acreditasse em algo com o coração, entrava de cabeça sem querer saber das conseqüências. Havia feito uma promessa a si mesmo, prometera um dia realizar este desejo. Entretanto a natureza deste desejo só será revelada mais tarde.
Estava indo para a escola como fazia em todas as malditas manhãs da semana. Entretanto, antes de sair de casa todo santo dia seu pai ralhava consigo, dizendo que ele precisava se dedicar mais aos estudos porque era ano de vestibular. Não estudava, não por descaso, mas por desinteresse. Achava aquilo um saco, costumava chamar o vestibular de “bestibular”, pois tudo que os estudantes faziam era decorar um monte de coisas inúteis. Uma estranha senhora, extremamente feia, veio em sua direção. Achou aquilo muito comum, já que não era o dono da rua. Entretanto algo estranho aconteceu, a velhota o chamou pelo nome.
“Tahsel ...” Sua voz era horrível, aguda e estridente. Era bem capaz se a velhota gritasse, muitos vidros seriam quebrados pela sua voz .
“..” Resolveu não responder. Afinal de contas não era o único Tahsel no mundo, o seu nome podia até ser estranho mas com certeza havia mais de um no mundo.
“Ei ! Garoto sonhador ! Preciso conversar com você !” A velha gritou. CRUZES! Ele quase ficou surdo com a voz dela, os vidros podem até não terem quebrado, mas a sua orelha ficou em mil pedaços.
“Tá bom, velha chata, diz logo o que você quer! Mais diz logo porque eu estou atrasado” Estar atrasado para ele, era alívio. Odiava chegar na hora, adorava aquele horário. Amava o silêncio e a paz, característicos daquele horário. Era como se fosse a calmaria antes da tempestade. O barulho, ronco, característico dos carros havia diminuído bastante ou até em alguns raros dias cessado. Os pássaros cantavam alto. Era como se o tempo estivesse em suspensão por quarenta minutos, tempo restante para o início do maldito e tão odiado segundo tempo de aula.
“Me responde uma cousa. Você seria capaz de qualquer coisa para realizar o seu terceiro sonho ? Se a sua resposta for sim, venderia a sua alma para o Demônio afim de realiza-lo ?” Sentiu um calafrio percorrer, lentamente, todo o seu corpo. Seria possível que a velhota estivesse falando sério ? Pelo sim ou pelo não resolveu não arriscar.
“Vampiros não existem e todos nós sabemos disso” Estava indo contra a sua crença, entretanto não podia concordar com a velhota sem ao menos ter provas da vericidade de suas palavras.
“Engraçado, as suas palavras contradizem o seu coração” A velha abriu um largo sorriso, uma coisa deprimente. Seus dentes eram podres, os poucos restantes, pois a grande maioria não se encontrava lá, deixando vários buracos na boca da velhota. Iria ter pesadelos durante toda a sua vida, por causa daquela cena horrível.
“Quem é você para dizer para saber em que eu acredito ou não, hein ?” Se já estava bastante irritado com a audácia daquela velhota. Agora ela tinha passados dos limites!
“Idiota, ainda não percebeste ? Posso ler a sua mente ! Pois sirvo o Demônio !” A velhota conseguiu fazer uma cara mais feia ainda. Nossa agora ele estava realmente assustado e iria ter pesadelos durante duas vidas inteiras.
“Se o que falas é a verdade, vendo a minha alma sem ao menos pensar duas vezes” O seu coração estava batendo muito rápido, se acelerasse mais um pouco com certeza teria um enfarto. Secretamente, internamente, rezava para que as palavras da velhota fossem verdadeiras.
“Não há necessidade de duvidares de minha serva, jovem. Ela é minha mensageira” Uma estranha voz ecoou na mente de Tahsel. Era uma voz sinistra, porém se sentiu confortável em ouvi-la. Finalmente seu grande sonho iria se realizar.
“Então finalmente resolveu aparecer, hein ? Agora sei, porque esta velha veio até mim” A sua ansiedade era aparente, mesmo assim ele tentava inutilmente escondê-la.
“Se realmente aceitares os meus termos. Tudo o que precisa dizer é : Torne-me um vampiro e minha alma é sua senhor das trevas” Não podia acreditar. Não podia ser tão simples. Realizar um sonhos antes tido por ele como quase impossível.
“Tens vinte e quatro horas para se decidir, após isso não mais aceitarei o acordo” Após isso sentiu a voz desaparecer em sua mente e a velha a sua frente desaparecia lentamente.
“Espere! Tenho mais duas perguntas para você, Ó ser maldito. Por qual motivo fazes isto? E como saberei que não irás me transformar em um vampiro fracote?!” Não podia deixa-lo ir embora sem antes que ele o respondesse essas perguntas.
“A resposta da primeira é muito obvia, rapaz, é por sua deliciosa alma. Não serás um vampiro fracote. A única desvantagem quando se transformar em vampiro será não mais poder andar sobre os domínios do astro rei, o sol” Estava satisfeito iria aceitar os termos deles, mas ainda restavam vinte e quatro longas horas antes de se decidir. Iria aproveitar ao máximo esse tempo como humano.
Após este estranho evento seguiu o seu caminho para a escola deveria estar correndo, entretanto como o relógio já marcava sete e meia era inútil. Esperaria até o sinal do segundo tocar, pontualmente as sete e quarenta e cinco, para poder entrar na sala.
Não percebeu quando a aula de matemática começou, pois a sua mente não estava na escola naquele momento. Não conseguia tirar da cabeça o estranho acontecimento e as palavras do Demônio: “Torne-me um vampiro e minha alma é sua senhor das trevas”. Não podia ser tão fácil, não. Havia algo errado. Já havia tentado falar com Ele várias vezes, porém nunca havia conseguido, ou seja, todas as vezes anteriores foram um fracasso.
“Richard !” Gritou a professora de matemática, bem em seu ouvido. Chegou a ficar zonzo por causa do grito.
“Fala Fessora ! Não precisa gritar ! Eu to aqui !”A professora não ia com a sua cara e muito menos ele com a dela.
“Você estava prestando atenção a minha aula ?”A professora aparentava ter lá os seus trinta ou quarentas anos, bem conservada devido ao estresse de sua profissão.
“Ah .. Não... Eu sou a bela adormecida, não está vendo ?”A turma toda caiu na gargalhada quando ele disse isso.
“Ah é ?! Então está bem. Você poderia, por favor, resolver esta equação ?” A vingança dela tinha sido mortal. Agora ela o havia pego de calças arriadas.
“Merda ...” Sem querer, deixou escapar bem baixinho. Sorte dele a professora não ter escutado.
“O que você disse ?” Disse a professora quando ouviu um resmungo bem baixo vindo de Richard.
“Será ? Como ela pôde escutar ?” Pensou. Havia falado muito baixo, provavelmente ela só viu mesmo foi o movimento de seus lábios. “É deve ter sido isto”.
“Esse ai, Fessora ? Tem certeza ? Então está bem” Seu corpo suava frio, enquanto se preparava para levantar da carteira e ir resolver o problema no quadro negro.
Iria ser suspenso da escola com certeza, se não fosse a intervenção de Priscilla Bastos Gauss. Ela pediu para a professora refazer o problema, pois não tinha entendido. A expressão de ódio da professora logo se transformou em surpresa. Como logo ela não teria entendido ? Ela era a aluna número um da escola. A mesma surpresa que assolava a professora também o assolava, nunca tinha dirigido a palavra a aquela garota e ela o havia salvo. Descobriria o motivo depois. Esse pequeno incidente com as duas lhe deu mais tempo para pensar em algo mais importante .
Oito e cinqüenta, o sinal ecoava pelos corredores anunciando o fim da terrível aula de matemática. A próxima seria história, mais uma tortura. Entretanto, algo muito bom aconteceu. O professor de história havia faltado por algum motivo não revelado pelo coordenador da escola. Teriam um tempo de aula livre, em outras palavras, cinqüenta minutos santos sem aula. Isso era bom e ruim. Ruim porque a prova de história seria no dia seguinte e bom porque seria mais tempo livre para pensar.
Entretanto, seu pensamento foi interrompido por uma voz estranhamente familiar, assim trazendo-o de volta a realidade. Era de Priscilla, a voz que o chamava.
“Tahsel, você está ai ?” Ela teve a impressão de que a mente de Tahsel estava em qualquer outro lugar menos naquela sala de aula. Como se isso fosse uma novidade. A mente dele nunca se encontrava na sala de aula.
“Aonde mais eu estaria ?! Em marte, talvez ?” Suas palavras ecoaram pesado no ouvido de Priscilla. Eram palavras raivosas escondendo alguma coisa.
“Seu grosso! Estúpido!” A resposta de Tahsel havia tirado ela do sério. Não foi bem a resposta, mas o tom usado por ele na mesma.
“Mal … Não tive a intenção de irritá-la, mais diga lá que houve ?” Tahsel resolveu ser amigável com ela. Em retorno ao salvamento não esperado de cinco minutas atrás.
“Nada não. Só queria conversar com alguém novo por aqui, se é que você me entende” Realmente Tahsel era novo na escola, apesar de estudar lá há quase dois anos. Quando ela disse, Tahsel sentiu um tímido tom de ironia. Provavelmente porque a sua vida e sua personalidade eram um mistério para todos, já que era tão fechado.
“Depois eu te pago o favor, Priscilla. Não precisa vir cobrar” Não iria se abrir e nem muito menos confiar nela, sempre fora fechado e gostava de ser assim.
“Relaxa, não vim te cobrar nada. Fiz aquilo por deu na telha, só por isso.” Priscilla estava estranha enquanto falava com Tahsel.
“Calma não sou sua inimiga e nem muito menos vim cobrar coisa alguma. Só queria conversar com você e talvez, quem sabe, conhecê-lo melhor ” Conhecê-lo melhor ? Que história é essa ? Tahsel estava extremamente desconfiado dela, havia algo muito estranho no ar e ele podia sentir.
“Tá por mim tudo beleza. Só tem uma condição, tá ? Não quero confusão com o Fábio” Esse era o nome do namorado dela. Para Tahsel não passava de mais um playboyzinho, filhinho de papai metido a besta, só isso nada mais. Fábio era forte mas Tahsel era mais, só tinha um pormenor : os amigos de Fábio. Como todo bom playboy nunca andava sozinho, estava sempre acompanhado de seus amigos.
“Relaxa ele só late, não morde” Priscilla fez uso de um sentimento que Tahsel não sentia em alguém há muito tempo, não com a intensidade usada por ela. A sinceridade das palavras dela, o fez baixar a guarda com ela. Ele não fazia isso há muito tempo. Sentiu-se à vontade com ela, confortável. Passou a nutrir um tímido sentimento de confiança para com dela.
“Você fala com sinceridade e sem medo isso é raro hoje em dia” A grande maioria das pessoas não fazem uso da sinceridade, não como essa garota acabara de fazer.
“Hu … Você é mais maneiro do que aparenta. Se você fosse assim com todos, não seria assim tão sozinho” Estava conseguindo o que tanto alvejava : a confiança de Tahsel.
RIIIIIIINNNGGGG !!!!!! Ecoava pela escola o barulho do sinal, parecia mais um gongo desafinado e muito alto, novamente pontual, encerrando o que deveria ter sido uma aula de história. Para a grande maioria dos alunos seria mais um tempo de tortura, entretanto para a classe de Tahsel, era aula de educação física.
Richard subiu para o terraço com a intenção de tirar um “ronco”, como sempre fazia nas aulas de educação física. Achava aquela aula um saco, um desperdício de tempo. Teria sido mais um bom e normal “ronco”, se aquilo não tivesse acontecido. Um barulho de porta batendo. Seria um inspetor ? Se fosse não havia problemas, pois os mesmos haviam desistido de delatá-lo há muito tempo. Não adiantava. Depois de cumprida a punição, lá estava ele denovo. Desistiram também por outro motivo, quando Tahsel estava tirando seu “ronco” não incomodava ninguém. Não que o fizesse normalmente, mas sua personalidade em si assustava um pouco a todos.
Com a sua visão ainda se acostumando com a luminosidade ele tentou enxergar quem era, não pôde ver muito bem. Teve certeza de ter visto algo comprido e dourado. Podiam ser fios de cabelo, corda, enfim algo do gênero. Deduziu por cabelos. Logo homem não seria, pois ele era o único na escola a usar cabelos longos. Os cabelos pareciam ser dourados, quem seria ? Muitas garotas usavam esse tipo de coloração no cabelo. A garota encostou ao lado da porta e dormiu.
Aos poucos a visão de Tahsel foi melhorando e ele conseguiu vir com clareza quem era. Levou um puta susto ao descobrir tratar-se de Priscilla. . Mais o que diabos ela estaria fazendo ali, naquele horário matando aula ? Ela era estudante número um da escola. Para ele “CDFs” não matavam aula, isso era coisa dos alunos considerados “vagabundos”, relaxados,como ele.
O vento estava estranho. Era como se estivesse anunciando, dizendo, que alguma iria mudar. Ah ! Os ventos da mudança ! Há quanto tempo não os sentia. A sensação da brisa levantando o cabelo, batendo contra o seu tórax, era algo indescritível. Pelo menos com palavras. Algumas nuvem negras cobriam o seu, contudo não foram suficientes para conter a luminosidade onipotente do sol. Esse brilhava com todo o seu esplendor, de Astro Rei. Fazendo o clima esquentar um pouco mais que o habitual, nada muito alarmante.
O vento trouxe a mente de Tahsel a seguinte pergunta : “É realmente o meu sonho se tornar um vampiro ?”, pode parecer um pensamento completamente ridículo, para quem sempre quis e sonhou em se tornar um, mas fora exatamente isso o pensamento do menino.
“Se me tornar um vampiro terei de desistir de tudo na minha vida, já que não mais serei capaz de caminhar a luz do sol, terei de matar para sobreviver, por estas e muitas outras terei de desaparecer da vida das pessoas que me conhecem.” Pensou Tahsel.
Tahsel só queria uma coisa antes de se tornar um vampiro, essa coisa era sentir amor por alguém. Nunca havia realmente amado uma pessoa, muito menos acreditava isto ser possível, entretanto sabia da existência de tal sentimento. Sua pais o amavam, até o pentelho do seu irmão mais novo o amava, contudo Tahsel não os amava. O único sentimento conhecido por ele era o ódio. Esse frio sentimento, nunca o havia deixado na mão. Esteve sempre lá quando precisou dele. Não era como os humanos, que o deixavam na mão ou até mesmo o traíram sem pensar duas vezes. O ódio dava forças para Tahsel seguir em frente, contudo ...
“A única coisa que admiro nos humanos é a sua capacidade de amar incondicionalmente o próximo. Eles podem amar e odiar ao mesmo tempo. Não consigo fazer isto.” Pensou ele
Tahsel resolveu parar de pensar, pois quanto mais o fazia, mais confuso ficava. Decidiu ver como estava Priscilla. Parecia um anjo, dormindo encostada na parede. Seu cabelo loiro e cacheado balançava com o vento.
“O seu coração sabe, sim, como amar. Porém você não o deixa faze-lo” Uma estranha voz, falava diretamente dentro do coração de Tahsel. Estranha ? Sem chance. Já havia escutado essa voz em algum lugar. Não poderia ou poderia ? Não isso seria impossível.
“Uma vez você disse para si mesmo : O dia em que eu parar de acreditar que o impossível é possível, pode cortar a minha existência em mil pedaços pois não serei mais eu mesmo. Lembra disso ?” Continuou a voz.
“Como você sabe disso? Quem é você?” Tahsel estava muito curioso, para saber de quem era a voz. Ele só havia dito aquela frase a uma única pessoa. Sua melhor amiga. Não era bem uma pessoa.
“Você me conhece, Richard” Respondeu a voz
“Te conheço ? Da onde ? Não consigo lembrar e toda vez que tento minha cabeça dói” Não podia ser ela, mas se era por que ele não conseguia se lembrar dela?
“Se você quiser se lembrar de mim, use o seu coração em vez de sua mente” Realmente a voz era extremamente familiar para Tahsel, sentia até felicidade em ouvi-la contudo não conseguia se lembrar de sua dona.
“Usar o meu coração?” Indagou ele.
“Você sabe como. Liberte-se da jaula.” Quanto mais a voz falava, mais Tahsel sentia-se feliz. Sentia o seu coração quente, novamente. Era como se aquela voz fosse alguém muito querido para ele, algo como uma mãe.
“Jaula ? Que jaula ? Eu sou livre” Não era possível que alguém o conhecesse tão bem. Não se lembrava de ter se aberto assim para alguém, nem para o maldito traidor.
“NÃO MINTA !!!!! Atualmente você se encontra tão preso nesta maldita jaula, que pretende se tornar um vampiro para esquecê-la, certo ?” Novamente a voz, o surpreendera.
“VOCÊ ESTÁ ERRADA !!!!! Eu quero me tornar um vampiro, porque ... porque ...” Não conseguia dizer o real motivo de desejar tanto se tornar um vampiro, tinha medo da resposta da estranha voz.
“Porque deseja esquecer os seus sentimentos, não ?” Como ? Não era possível. A voz conseguia ler com extrema perfeição o seu coração.
“E se for ? A escolha é minha e não sua” Não conseguia sentir ódio pela voz, sentia somente algo quente dentro de seu peito.
“Você é fraco, o seu medo é enorme ...” A voz interrompeu a frase deixando um clima de suspense no ar.
“E ...” Ironizou Tahsel
“Não há porque eu terminar a frase você sabe o resto, não sabe ?” Ironizou de volta a voz
“…” Havia sido derrotado pela voz. Era um livro aberto para ela, não sabia como mas era.
“O seu sofrimento é enorme, pois possuis uma capacidade anormal de sentir” Podia tentar negar, contudo era essa a grande verdade.
“Eu sensitivo ? Pegou a pessoa errada, minha querida” Jamais aceitaria isso. Iria negar até o fim.
“Possuis um coração puro. Isso é era raro, extremamente raro. É uma dádiva e ao mesmo tempo uma maldição. Você sofre imensamente quando vê alguém morrendo, machucado ou até mesmo quando há alguém sofrendo e não há como você ajuda-lo.” Esse era a pessoa contra a qual ele havia lutado por toda a sua vida. Não conseguia suportar tamanha crueldade. Odiava o mundo por ter nascido daquela maneira.
“QUAL É O SEU PROBLEMA COM ISSO ?” Seja de quem fosse a voz, havia tirado ele do sério. Estava extremamente irritado. Porém nem assim conseguia odiar a voz .
“Eu não tenho nenhum. Quem tem é você. Esse é seu grande segredo, não é ? É por isso que sonhas, é para fugir, se esconder, da realidade não é ? Nos seus sonhos você normalmente sofre muito e morre no final, entretanto graças ao seu sacrifício a verdadeira paz é atingida e o mal é banido deste mundo. Contudo o bem e o mal não são tão simples assim, são ?” Ela sabia de seus sonhos. Quem seria essa pessoa tão querida por ele, que não conseguia odiar. Sentia-se bem quanto mais conversava com ela, sentia-se bem por ela saber tanto sobre ele.
“ Ha ... Me diga algo que eu não saiba. Bem/Mal esse é um paradoxo muito complicado para eu entender, entretanto a batalha entre eles é eterna isso eu sei” Estava confiando novamente em alguém. O medo em seu coração desaparecia lentamente.
“Talvez ou talvez você já o tenha compreendido. Irei lhe responder quem sou eu, meu pequenino, sou a vida presente em todos os seres da Terra. Se quiseres realmente se tornar um vampiro, quero dizer se este for realmente o seu sonho. Torne-se um, meu protegido” Meu protegido ? Meu pequenino ? Tahsel com certeza já havia escutado essas palavras em algum lugar.
“Ga ... Gaia ? Esse é seu nome, não ? Não sei porque mas estou me sentindo diferente desde o início de nossa conversa.” Gaia ? Quem era ela ? Tahsel tinha certeza absoluta de conhece-la. Entretanto não conseguia se lembrar dos detalhes.
“Fico feliz por se lembrar de meu nome, meu pequenino. Sua mem ... Adeus” A voz lentamente foi desaparecendo e juntamente com o sentimento de felicidade de Tahsel.
Após o termino da estranha conversa Tahsel, foi novamente ver como estava Priscilla. Continuava dormindo feito um anjo, contudo agora a pequena penumbra antes presente havia sido substituída pelo sol. Resolveu então pegá-la nos seus braços e coloca-la em outro lugar aonde houvesse alguma sombra ou penumbra.
Não demorou muito para encontrar o lugar ideal. Logo que encontrou deitou-a, com cuidado, porém não conseguiu se afastar dela. Sentia algo estranho, novo, por ela. Sentia vontade de dar carinho a ela. Nunca antes havia tido este sentimento.
Sentou-se ao lado dela e a pôs a cabeça dela em seu colo e iniciou um lento movimento de vai e vem com seus dedos entre os cabelos dela. Ele não se reconhecia, por que estava fazendo aquilo com ela ? Ele acabou de conhece-la, por que estava se sentindo daquela maneira ? Também não sabia. Contudo uma coisa era certa, quanto mais ficava ali com ela menos queria se transformar em um vampiro.
Meio dia e meia, era a hora indicada pelo sol. Quando estava olhando para sol com o intuito de saber as horas, Tahsel se lembrou de seu falecido avô. Duas lágrimas, cada uma proveniente de um olho, percorreram lentamente o seu rosto. Tinha sido ele quem lhe ensinara a ver as horas pela posição do sol ou da lua.
Estava na melhor hora do dia, para ele. Era a hora da comida, do rango, de “matar quem estava matando ele” ou seja a fome. Porém antes de ele encostou lentamente Priscilla na parede. Não queria que ela soubesse de sua presença ali. Provavelmente ela acordaria em alguns minutos ou até menos.

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